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EM LAVRAS E NO BRASIL, A MORTE DO PEQUENO COMÉRCIO? 19 MILHÕES DE MICROEMPRESÁRIOS PODERÃO SER ASFIXIADOS COM INÍCIO DO SPLIT PAYMENT EM 2027

Mercearia em Lavras: possível asfixia de caixa com split payment em 2027? (Foto: André Luis Fontes)

Enquanto os que podem, nos andares de cima, planejam o refúgio na Europa, a nova reforma tributária prepara a asfixia de 19 milhões de microempresários. Com o chamado split payment, a cada venda de R$ 100, o governo abocanhará R$ 21,88 na hora, direto na máquina de cartão, destruindo o capital de giro das empresas. E parece que essa ficha ainda não caiu para o brasileiro que luta para empreender.  A nova forma de recolhimento de impostos pode mudar a rotina de milhares de comerciantes e prestadores de serviços. E o pequeno empresário terá de se preparar para não ser esmagado pela burocracia e pela falta de capital de giro. Existe uma pergunta que precisa ser feita antes que o novo sistema tributário entre definitivamente na vida do brasileiro: o pequeno comerciante terá estrutura financeira e tecnológica para sobreviver à nova realidade? Essa preocupação ganha força com a chegada do chamado split payment, mecanismo previsto na Reforma Tributária do consumo que permitirá a segregação e o recolhimento automático do IBS e da CBS no momento em que uma operação financeira for liquidada. A implantação está prevista para ocorrer a partir de 2027 e de maneira gradual. Em 2026, empresas e sistemas estão justamente na fase de preparação, testes e adaptação. E é justamente aí que começa a grande discussão. Para o pequeno comerciante, a realidade é completamente diferente. É a loja de roupas da esquina. A pequena papelaria. O salão de beleza. A oficina. A padaria. O restaurante familiar. O profissional que presta serviços. O pequeno mercado que luta diariamente para pagar aluguel, fornecedores, funcionários, energia elétrica e impostos. Muitos desses empresários trabalham com margens apertadas e dependem de cada centavo que entra no caixa. É por isso que qualquer mudança que altere o momento em que o dinheiro fica disponível para a empresa merece atenção. O problema não é simplesmente pagar imposto. O problema é não ter dinheiro para manter o negócio funcionando enquanto o sistema tributário muda completamente.

E COMO ISSO PODE CHEGAR A LAVRAS?

Em Lavras, essa discussão está longe de ser teórica. Segundo dados do Observatório do Sebrae, o município tinha 15.511 empresas ativas em maio de 2026. Do conjunto de estabelecimentos registrados até 2025, havia 7.609 MEIs, 5.581 microempresas e 650 empresas de pequeno porte. Mais: o comércio varejista aparece como a principal atividade econômica em número de estabelecimentos, com 2.707 empresas, enquanto o comércio varejista empregava 5.230 trabalhadores em 2025, segundo os dados apresentados pelo Sebrae. Ou seja: quando se fala em mudança tributária, estamos falando diretamente da economia lavrense. Não é Brasília. Não é apenas São Paulo. Não é apenas problema das grandes empresas. É assunto da loja que está na Avenida Pedro Sales, na Rua Francisco Sales, na Zona Norte, na Zona Sul, nos bairros e nos centros comerciais da cidade. É assunto do comerciante que conhece seus clientes pelo nome.

O DINHEIRO DA VENDA PODERÁ SER SEPARADO AUTOMATICAMENTE

O conceito do split payment é relativamente simples. Na liquidação financeira de uma operação, o sistema de pagamento poderá separar automaticamente o valor correspondente ao IBS e à CBS e encaminhá-lo ao Fisco. A própria regulamentação determina que a segregação e o recolhimento ocorrerão na data da liquidação financeira da transação. Em operações parceladas, o recolhimento deverá acompanhar as parcelas. Para o governo, existe uma justificativa clara: reduzir a sonegação, aumentar a eficiência da arrecadação e tornar o sistema tributário mais automático. Mas o pequeno empresário pode enxergar a questão por outro ângulo. Quem vai garantir o capital de giro? Essa é uma pergunta que precisa ser respondida.

19 MILHÕES: UM NÚMERO QUE NÃO PODE SER IGNORADO

O número de aproximadamente 19 milhões aparece em diferentes levantamentos relacionados aos pequenos negócios e aos empreendedores brasileiros. Em estudo citado em 2024, por exemplo, o Movimento Econômico informou a existência de cerca de 19 milhões de microempreendedores informais no país. Em 2025, mais de 1,3 milhão de empregos formais foram criados por micro e pequenas empresas entre janeiro e novembro, segundo levantamento do Sebrae com base no Caged. Portanto, falar sobre o futuro desses empreendedores significa falar sobre emprego, renda e sobrevivência econômica de milhões de brasileiros.

E LAVRAS?

Lavras é um exemplo perfeito de como o pequeno negócio movimenta uma cidade. Segundo o Sebrae, em 2025, o comércio varejista estava entre os setores que mais concentravam trabalhadores no município, com 5.230 pessoas empregadas. E existe outro dado revelador: entre as novas empresas abertas em Lavras em 2025, 68,5% eram MEIs, 21,2% microempresas e 3,63% empresas de pequeno porte. Isso demonstra que o empreendedorismo de menor porte continua sendo uma das principais portas de entrada para quem deseja trabalhar por conta própria e gerar renda. Em 2024, Lavras também esteve entre os municípios do Sul de Minas que mais abriram pequenos negócios, com 883 novos empreendimentos. Portanto, se o pequeno comércio for sufocado por excesso de burocracia, custos tecnológicos, dificuldade de capital de giro e complexidade tributária, Lavras sentirá os efeitos.

A PERGUNTA QUE FICA PARA LAVRAS

Nos próximos anos, o consumidor lavrense poderá assistir a uma transformação silenciosa no comércio da cidade. Algumas empresas irão se adaptar. Outras poderão reduzir custos. Algumas talvez repassem custos para os preços. E outras, especialmente as mais frágeis, poderão simplesmente desistir. Por isso, a discussão sobre o split payment não deveria ficar restrita a contadores, advogados tributaristas e técnicos do governo. Ela precisa chegar ao balcão da pequena loja. Precisa chegar ao comerciante. Ao MEI. Ao prestador de serviços. Ao dono da padaria. Ao cabeleireiro. Ao vendedor. Ao empreendedor que acorda cedo e fecha a porta do seu estabelecimento somente depois de pagar todas as contas. Porque, no fim das contas, não existe economia forte sem pequeno negócio forte. E se a promessa é de simplificação, o pequeno empresário tem todo o direito de cobrar: será realmente uma reforma para simplificar ou apenas uma nova maneira de cobrar?

LAVRAS PRECISA FICAR DE OLHO

O split payment ainda está entrando em fase de implementação e testes. A própria documentação técnica oficial informa que sua implantação está prevista para 2027 e que os campos relacionados ao mecanismo não têm exigência de uso em produção pelas empresas em 2026. Portanto, não é hora de anunciar a “morte” do pequeno comércio como fato consumado. Mas é, sim, hora de discutir seriamente o assunto. Porque quando uma mudança tributária pode atingir diretamente o fluxo de dinheiro de milhões de pequenos empreendedores, esperar para descobrir o impacto depois que a regra estiver funcionando pode ser tarde demais. Em Lavras, o alerta está dado.