Pular para o conteúdo principal

LAVRAS: SIMPÓSIO NA UFLA DEBATERÁ DOENÇAS QUE MUITOS ACREDITAVAM EXTINTAS E AINDA DESAFIAM A SAÚDE PÚBLICA NO BRASIL

A Dra. Joziana Barçante, professora do curso de Medicina da UFLA, e coordenadora do Simpósio (Foto: André Luis Fontes)

Hanseníase, doença de Chagas, leishmaniose, tuberculose e arboviroses continuam afetando milhares de brasileiros e preocupando pesquisadores, profissionais da saúde e autoridades sanitárias. Mesmo após décadas de avanços científicos, muitas dessas enfermidades seguem presentes — impulsionadas pela desigualdade social, diagnóstico tardio, mudanças ambientais e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Em Minas Gerais, o alerta também passa pelas arboviroses. Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde, o estado já ultrapassa 52 mil casos prováveis de dengue em 2026. Ao mesmo tempo, doenças historicamente negligenciadas continuam presentes no estado. Entre 2020 e 2025, Minas Gerais registrou 5.570 novos casos de hanseníase, segundo o Boletim Epidemiológico Estadual da Hanseníase 2026. O próprio estado reconhece a existência de bolsões de transmissão ativa da doença. Na Universidade Federal de Lavras (UFLA), o tema será debatido durante o VI Simpósio Brasileiro de Doenças Negligenciadas e o II Simpósio Mundial sobre o assunto, coordenados pela professora Dra. Joziana Barçante, do curso de Medicina da UFLA, com apoio da Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural (FUNDECC). Um episódio ocorrido recentemente em Lavras reforçou a preocupação dos pesquisadores. Um estudante de Medicina da UFLA encontrou um barbeiro dentro do apartamento onde mora, no bairro Centenário, região central da cidade. O inseto era um barbeiro, vetor do Trypanosoma Cruzi, protozoário causador da doença de Chagas. A vigilância epidemiológica foi acionada e a região passou por monitoramento. Embora o inseto encontrado no apartamento do estudante não estivesse infectado, outros barbeiros positivos para a doença já foram identificados em diferentes pontos do município. “Por que ele me ligou? Porque ele sabia o que era um barbeiro”, afirma a professora Joziana Barçante, destacando a importância da informação e da educação em saúde. Segundo a pesquisadora, ainda existe uma falsa percepção de que muitas dessas doenças pertencem ao passado. “Hanseníase está nos registros bíblicos e ainda é um problema”, alerta. A tecnóloga em Saúde Pública do Instituto René Rachou (IRR/Fiocruz Minas), Raquel Aparecida Ferreira, explica que a doença de Chagas continua entre as 20 doenças tropicais negligenciadas da Organização Mundial da Saúde (OMS). “A doença jamais será completamente erradicada em países endêmicos, porque seu ciclo ocorre naturalmente nos ambientes silvestres”, afirma. Ela também chama atenção para a aproximação crescente dos vetores das áreas urbanas. “Num cenário agravado pelas mudanças climáticas e pelas alterações ambientais provocadas pela ação humana, a tendência é que os triatomíneos se aproximem cada vez mais dos ambientes urbanos, aumentando o risco de transmissão”, alerta. Para o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Andrey José de Andrade, as doenças negligenciadas continuam atingindo principalmente populações vulneráveis e invisibilizadas. “Elas acometem pessoas com pouca voz política e baixa visibilidade social”, destaca. Segundo ele, o debate sobre essas enfermidades vai muito além da área biomédica. “Hoje, a discussão também é política, econômica, social e cultural.” O simpósio também dará espaço para pessoas afetadas diretamente por essas doenças. Um dos convidados é Paulo Rodrigues, integrante do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas e curado da hanseníase. Ele conta que demorou três anos para receber o diagnóstico correto da doença, mesmo tendo procurado atendimento médico desde os primeiros sintomas. “O estigma dói. A discriminação fere. Existem feridas emocionais que talvez levemos a vida inteira para curar”, relata. Além das palestras e mesas científicas, o evento também promove atividades abertas ao público, aproximando universidade e população. “A ciência tem que ir onde o povo está”, resume Joziana. O simpósio reúne pesquisadores do Brasil e exterior, representantes da Fiocruz, Instituto Butantan, Médicos Sem Fronteiras, pesquisadores da África, Colômbia e do Instituto de Medicina Tropical de Londres. A FUNDECC atua no suporte operacional e logístico do evento, incluindo apoio à organização, gestão de projetos, compras e passagens.

SERVIÇO:
VI Simpósio Brasileiro de Doenças Negligenciadas e II Simpósio Mundial 19 a 23 de maio de 2026 Salão de Convenções da Universidade Federal de Lavras (UFLA) — Lavras/MG